Entrevista com o pesquisador do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental/DSSA, Renato Castiglia Feitosa, sobre seu artigo: Modelagem hidrodinâmica acoplada de campo próximo e campo afastado para a otimização da localização de um emissário submarino de esgoto em ambiente costeiro tropical
Renato Castiglia Feitosa1, Paulo Cesar Colonna Rosman2
Essa entrevista institucional objetiva comentar sobre o artigo publicado, seus resultados, sua aplicação prática e a contribuição da produção científica do pesquisador para o Departamento
Pergunta 1:
Seu artigo apresenta uma metodologia integrada de modelagem para avaliar diferentes alternativas de localização de um emissário submarino de esgoto, considerando a circulação das águas, a dispersão dos efluentes e a redução de bactérias. Quais são as principais contribuições desse trabalho para o avanço das pesquisas em saneamento e saúde ambiental desenvolvidas no DSSA?
Resposta do pesquisador Renato Castiglia Feitosa:
As principais contribuições do trabalho para o DSSA dividem-se em duas perspectivas.
A primeira é de caráter sociotécnico, voltada ao combate da desinformação acerca da disposição oceânica de efluentes sanitários. Os emissários submarinos não são um problema sanitário, mas sim uma solução comprovada para minimizar os riscos associados a balneabilidade, e reduzir a disseminação de doenças de veiculação hídrica. A poluição costeira não é decorrente do lançamento submarino, mas sim da contaminação pelos rios e lagoas poluídos que se comunicam com a costa. Esta poluição é decorrente da não integralidade dos sistemas coletores de águas residuárias e ausência de tratamento apropriado destes efluentes. A título de exemplo, as melhores condições de balneabilidade da praia do Leblon decorrem da condição de tempo seco. Nesta ocasião comportas hidráulicas promovem o barramento do Canal Visconde de Albuquerque, impedindo o deságue de suas águas na praia, através do bombeamento das águas do canal para o Emissário Submarino de Ipanema. Já em tempo significativamente chuvoso a vazão supera a capacidade de lançamento submarino, e o canal desemboca na praia, comprometendo sua balneabilidade. Em resumo emissário não causa a poluição; ele mantém a praia limpa ao afastar o efluente da costa, permitindo a degradação dos patógenos pela radiação solar e a dispersão oceânica em níveis seguros para o contato humano.
A segunda perspectiva diz respeito à inovação metodológica. O trabalho implementa modelos de análise de qualidade da água que integram os processos de dispersão e degradação de contaminantes microbiológicos às forçantes naturais responsáveis pela hidrodinâmica local. Para o DSSA, o avanço reside na alta capacidade preditiva desses modelos, que se tornam ferramentas essenciais de gestão. Eles não apenas elucidam a dinâmica atual da poluição costeira, mas fornecem subsídios técnicos precisos para a tomada de decisão e formulação de políticas públicas em saúde ambiental e saneamento.
Pergunta 2:
Os resultados demonstram que a localização de um emissário submarino influencia a dispersão dos efluentes e os riscos de contaminação das águas utilizadas para recreação. Como os resultados dessa pesquisa podem contribuir para o planejamento do saneamento, a proteção dos ecossistemas costeiros e a tomada de decisões por gestores públicos e seu impacto na saúde?
Resposta do pesquisador Renato Castglia Feitosa:
O planejamento sanitário deve integrar aspectos técnicos, sociais e financeiros. Nesse contexto, os resultados desta pesquisa fornecem aos gestores públicos uma base de dados concreta — fundamentada na modelagem de cenários — mostrando que a escolha exata da localização do emissário é a chave decisória para o esgotamento sanitário costeiro.
Com o atual adensamento populacional, as cargas de esgoto geradas são suficientes para colapsar corpos hídricos interiores, pois estes possuem volume reduzido para diluição, mesmo quando há tratamento convencional prévio. Ao modelar a dispersão e a redução bacteriana, a pesquisa permite que os gestores analisem o sistema de forma holística, abandonando a busca por uma 'opção ideal' utópica para focar na alternativa realística de menor risco sanitário e melhor custo-benefício.
No que tange à proteção ecossistêmica e à saúde, os resultados comprovam que alocar emissários de forma otimizada poupa os ecossistemas interiores e costeiros mais sensíveis. O tratamento convencional não garante a remoção total de poluentes (especialmente os químicos). Deste modo, o direcionamento de efluentes sanitários visando a alta capacidade de dispersão oceânica evita o acúmulo de contaminantes em áreas de recreação e a contaminação de aquíferos destinados ao abastecimento humano. Como consequência direta, mitiga-se a exposição humana a patógenos e reduzem-se os gastos públicos com o tratamento avançado de águas de abastecimento.
Pergunta 3:
Considerando a relevância da modelagem ambiental e a necessidade de soluções sustentáveis para os desafios do saneamento, quais são as perspectivas de continuidade dessa linha de pesquisa e de que forma sua produção científica pode ampliar as contribuições do DSSA para a sociedade?
Resposta do pesquisador Renato Castiglia Feitosa:
A continuidade desta linha de pesquisa já está assegurada por um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre o DSSA e a Escola Politécnica da UFRJ, vigente até 2030. As perspectivas futuras envolvem não apenas a consolidação da modelagem de dispersão de efluentes, mas também a expansão para novos parâmetros de qualidade da água, englobando oxigênio dissolvido, demanda bioquímica de oxigênio (DBO), nutrientes e intrusão salina.
Atuo com qualidade de águas e emissários submarinos desde meu ingresso no doutorado na COPPE/UFRJ, em 2003. Desde então, minha produção científica (nacional e internacional) consolidou um forte viés aplicado a soluções reais de engenharia. É exatamente essa aplicabilidade que amplia as contribuições do DSSA para a sociedade: os estudos desenvolvidos saem da academia e geram impacto direto no planejamento do saneamento ambiental.
Na prática, o emprego de modelagem computacional otimiza projetos e gera economia de milhões de reais aos recursos públicos, evitando, por exemplo, o superdimensionamento do comprimento de tubulações submarinas. Além disso, permite atuar de forma preventiva no planejamento sanitário, determinando matematicamente o ponto exato de lançamento dos efluentes objetivando a total proteção das zonas balneáveis. Dessa forma, o DSSA entrega à sociedade não apenas conhecimento científico, mas gestão eficiente e proteção direta à saúde e ao meio ambiente.